Meu pai é médico, tenho que reconhecer que foi ele e seu exemplo o mais
importante fator para que eu quisesse ser médico também, ao final do
"segundo grau". Mas antes tinha sonhado ser bombeiro (bem pequeno),
soldado, astronauta (talvez até hoje...) e cientista, físico nuclear para
ser mais exato. Mas podia ser alquimista se fosse possível... Passei do gênero
heroico gradualmente para o científico, com um quê delirante, é verdade. No fim,
o que mais me impressionava na profissão de meu pai eram suas
explicações científicas sobre o corpo humano, seu funcionamento e sua
fragilidade. Meu pai foi um excelente inspirador para uma mente curiosa e
sem noção como a minha. Mas minhas ingênuas ideias sobre ciência não me
permitiram antever a expansão de significado e conteúdo que entrar no curso de
medicina me proporcionaria. Foi na Universidade Federal do Paraná que
entendi a distância entre a ciência teórica e sua aplicação para
finalidades concretas, como tratar doenças, e como é peculiar viver entre essas
duas dimensões. Conheci sobre mim mesmo, entendi visceralmente muito do que meu
pai me havia dito, sobre as pessoas que sofrem, e temem, sobre a dor, sobre
responsabilidades nobres nas mãos de indivíduos falíveis. Aprendi os
requisitos básicos para atender pessoas, um razoável número de protocolos, e
comecei a viver um longo processo de identificação com o “outro” e suas
necessidades, que nunca se conclui finalmente. Como médico, formado ali, na
"Casa de Nilo Cairo", encontrei minha identidade, mas ainda me
faltaria dar-lhe conteúdo científico e orientação existencial mais amplos.
Foi o que encontrei em outra casa acadêmica, um imenso e tradicional hospital
público e seus avançados institutos especializados. Tanto meu pai (que se
formou na atual UFMG) como eu, fomos residentes do Hospital das Clinicas, da
Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), e lá conhecemos nossas especialidades:
ele pediatra e eu, psiquiatra. A FMUSP, e por extensão o HC, são
conhecidos como "A casa de Arnaldo" em referência ao fundador da
faculdade de medicina, Arnaldo de Carvalho Aguiar. São instituições míticas, construídas pela força impressionante da iniciativa pública, o que lhe acrescenta ainda mais valor nestes tempos onde tudo que é público é decadente, inferior.
Conheci melhor o HC, “o maior complexo médico-acadêmico-hospitalar da América
Latina” me diziam, e não foi difícil acreditar. São quadras sucessivas, e
enormes, de hospitais, centro administrativo, moradia médica, as faculdades de
medicina e de enfermagem, vários institutos e em anexo a Associação Atlética
Osvaldo Cruz. Uma “cidadela” onde habitam pessoas usando jalecos, roupa branca
e pacientes, de todos os lugares do país. Foi “nas Clínicas” que vivi as
experiências que te tornam um médico realmente: conhecer realmente o que é “disciplina
espartana” e ver o porquê disso; enfrentar suas limitações e arcar com
responsabilidade virtualmente ilimitada; viver o orgulho efêmero do sucesso e a
culpa, difícil de esquecer, do fracasso. Lá também conheci tecnologia médica de
ponta e pesquisadores, muitos, que participavam de um universo cosmopolita,
onde as pessoas costumavam cruzar fronteiras e continentes com uma banalidade,
para mim, impressionante. Mas conheci a atmosfera de ciência inspiradora que eu
precisava, e fui apresentado a campos científicos que me pareceram bons
caminhos para trilhar. Foi com esse último acabamento formativo que iniciei o
caminho tortuoso que define onde estou e o que sou hoje. Adquiri minha
perspectiva pessoal do mundo. O nome do blog é uma homenagem à minha última “grande
casa existencial” e ao caminho trilhado depois dela. É com alguma injustiça que
não está no título uma referência à minha própria casa paterna, à minha escola
de graduação e muitas outra origens que sinto terem contribuído de forma
decisiva, mas eu, e creio que como eu meu pai, sentimos ter vivido na “casa de
Arnaldo” o momento definitivo onde se construíram nossas identidades
profissionais e pessoais. Este espaço tem a intenção óbvia de expor meu
pensamento, sobre certos campos da ciência, sobre medicina e sobre a sociedade
que observo, mas o que eu busco é o contraponto, a opinião alheia, que tenho
dificuldade em encontrar. Se tiver sorte de ter com quem debater, espero que
compreendam que não tenho como ser rápido na resposta, mas prometo tentar.
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