segunda-feira, 2 de setembro de 2013

As casas onde se nasce médico


Meu pai é médico, tenho que reconhecer que foi ele e seu exemplo o mais importante fator para que eu quisesse ser médico também, ao final do "segundo grau". Mas antes tinha sonhado ser bombeiro (bem pequeno), soldado, astronauta (talvez até hoje...) e cientista, físico nuclear para ser mais exato. Mas podia ser alquimista se fosse possível... Passei do gênero heroico gradualmente para o científico, com um quê delirante, é verdade. No fim, o que mais me impressionava na profissão de meu pai eram suas explicações científicas sobre o corpo humano, seu funcionamento e sua fragilidade. Meu pai foi um excelente inspirador para uma mente curiosa e sem noção como a minha. Mas minhas ingênuas ideias sobre ciência não me permitiram antever a expansão de significado e conteúdo que entrar no curso de medicina me proporcionaria. Foi na Universidade Federal do Paraná que entendi a distância entre a ciência teórica e sua aplicação para finalidades concretas, como tratar doenças, e como é peculiar viver entre essas duas dimensões. Conheci sobre mim mesmo, entendi visceralmente muito do que meu pai me havia dito, sobre as pessoas que sofrem, e temem, sobre a dor, sobre responsabilidades nobres nas mãos de indivíduos falíveis. Aprendi os requisitos básicos para atender pessoas, um razoável número de protocolos, e comecei a viver um longo processo de identificação com o “outro” e suas necessidades, que nunca se conclui finalmente. Como médico, formado ali, na "Casa de Nilo Cairo", encontrei minha identidade, mas ainda me faltaria dar-lhe conteúdo científico e orientação existencial mais amplos. Foi o que encontrei em outra casa acadêmica, um imenso e tradicional hospital público e seus avançados institutos especializados. Tanto meu pai (que se formou na atual UFMG) como eu, fomos residentes do Hospital das Clinicas, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), e lá conhecemos nossas especialidades: ele pediatra e eu, psiquiatra. A FMUSP, e por extensão o HC, são conhecidos como "A casa de Arnaldo" em referência ao fundador da faculdade de medicina, Arnaldo de Carvalho Aguiar. São instituições míticas, construídas pela força impressionante da iniciativa pública, o que lhe acrescenta ainda mais valor nestes tempos onde tudo que é público é decadente, inferior. Conheci melhor o HC, “o maior complexo médico-acadêmico-hospitalar da América Latina” me diziam, e não foi difícil acreditar. São quadras sucessivas, e enormes, de hospitais, centro administrativo, moradia médica, as faculdades de medicina e de enfermagem, vários institutos e em anexo a Associação Atlética Osvaldo Cruz. Uma “cidadela” onde habitam pessoas usando jalecos, roupa branca e pacientes, de todos os lugares do país. Foi “nas Clínicas” que vivi as experiências que te tornam um médico realmente: conhecer realmente o que é “disciplina espartana” e ver o porquê disso; enfrentar suas limitações e arcar com responsabilidade virtualmente ilimitada; viver o orgulho efêmero do sucesso e a culpa, difícil de esquecer, do fracasso. Lá também conheci tecnologia médica de ponta e pesquisadores, muitos, que participavam de um universo cosmopolita, onde as pessoas costumavam cruzar fronteiras e continentes com uma banalidade, para mim, impressionante. Mas conheci a atmosfera de ciência inspiradora que eu precisava, e fui apresentado a campos científicos que me pareceram bons caminhos para trilhar. Foi com esse último acabamento formativo que iniciei o caminho tortuoso que define onde estou e o que sou hoje. Adquiri minha perspectiva pessoal do mundo. O nome do blog é uma homenagem à minha última “grande casa existencial” e ao caminho trilhado depois dela. É com alguma injustiça que não está no título uma referência à minha própria casa paterna, à minha escola de graduação e muitas outra origens que sinto terem contribuído de forma decisiva, mas eu, e creio que como eu meu pai, sentimos ter vivido na “casa de Arnaldo” o momento definitivo onde se construíram nossas identidades profissionais e pessoais. Este espaço tem a intenção óbvia de expor meu pensamento, sobre certos campos da ciência, sobre medicina e sobre a sociedade que observo, mas o que eu busco é o contraponto, a opinião alheia, que tenho dificuldade em encontrar. Se tiver sorte de ter com quem debater, espero que compreendam que não tenho como ser rápido na resposta, mas prometo tentar.
 
Vista aérea do HC FMUSP
Destaque do HC sem o Instituto da Criança
 
Mapa do HC

Um lugar para não esquecer

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