segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O caminho de Esculápio e a Terra Brasilis


Este texto publiquei primeiro no facebook. Meus amigos o conhecem. Reflete uma ponderação nascida do desajeitado embate dos médicos brasileiros com o governo. Acredito em tudo o que escrevi, por isso republico, com mínimas adaptações:
 


Desde que assinou seus vetos sobre a Lei do ato médico, Dilma Rousseff vem confirmando sua disposição e de seu grupo político em tomar, também no campo da saúde, medidas norteadas por motivações perversas, ocultas em gestos de apelo popular, como prescreveria Maquiavel. Anos de debate público, revisões do texto para evitar ambiguidades que preocupavam outros profissionais, de enfrentamento de um enorme lobby muito chegado ao grupo político atualmente no poder, de nada valeram. A presidente ratificou as distorções passionais dos insatisfeitos porque elas lhe dão um pretexto para fazer o que lhe é conveniente: limitar a liberdade e as prerrogativas dos médicos, o que a afasta de ter de atender a pressões para um investimento no SUS que é absolutamente indesejado. Não reconhecer o óbvio, que diagnósticos médicos e suas consequentes indicações terapêuticas devem ser uma atribuição exclusiva, permite ao governo prescindir de médicos em seu sistema, o que é mais barato, e é só isso que importa. O recado está dado e não adianta ter ilusões, a postura do governo é hostil aos médicos e continuará assim. Mais um passo para a elitização da medicina, onde só os ricos terão acesso a serviços de alta complexidade e qualidade. Para os pobres qualquer improviso vale. Não pensem que eles se importam também com os profissionais estrangeiros que pretendem trazer. Dispensar a revalidação é um ato calculado para aprisionar o médico estrangeiro nas armadilhas para as quais serão encaminhados. É visto de trabalho vinculado à contrapartida de ter cerceado o direito de dizer não, pois tais médicos não terão permissão legal para trabalhar fora das áreas designadas. Estrangeiro, em local geograficamente isolado, preso às condições locais não importa quais, subordinado a administradores municipais corruptos ou mal preparados... só falta reter o passaporte e inventar uma dívida a ser paga e já será trabalho análogo à escravidão, com a sutileza de se pagar um salário supostamente alto, que nunca cobriria os custos de se expor ao que há de pior no nosso sistema de saúde. Se o médico for cubano, não poderá desistir, pois já é escravizado pelo seu próprio país. Se for europeu, ao desistir, o fará com prejuízos e ficará a desculpa da intolerância dos mesmos às realidades da pobreza, coisa de almofadinha. E se alguém quiser fazer, voluntariamente, o revalida? Quero saber com que “facilidade” verá um visto de trabalho concedido... Em mais 7 anos, como se chegou a cogitar mas ainda não se descartou, uma nova leva de cativos estará disponível, sob a coação de depender de aceitar o que for oferecido para se formar médico. Me pergunto, porque somos um alvo tão fácil e constante? Por que essas ações hostis são aparentemente populares? O que devemos fazer de agora em diante? O problema é profundo e o enfrentamento poderá depender de uma grande mudança de mentalidade e atitude da nossa parte. Há muito tempo penso que nós médicos, no mundo todo, precisamos fazer uma reflexão sobre o sentido de nosso trabalho e de nossa missão, sobre nossa função na sociedade e sobre o que queremos nessa profissão. Considero todo trabalho honesto digno, sem nenhuma hierarquia comparativa. Mas alguns trabalhos são meios de sobrevivência enquanto outros, além disso, são dotados de um significado existencial inerente, que se mistura com a própria identidade. Ser médico não é banal, como não é banal qualquer profissão que precisa conviver com uma noção de missão e responsabilidade social, o que não precisa ser a essência de qualquer atividade. Nem melhor nem pior, essas são apenas diferenças. A medicina se presta a ser meio de sobrevivência, às vezes bastante bem, mas não se resume a isto. Sem sua dimensão existencial, sem que o médico encontre nela um caminho para o crescimento pessoal, espiritual ou filosófico (o que se preferir), se torna algo mais que banal, se torna vazio, triste e muitas vezes ridículo. Sem que o médico encontre nela o privilégio de compreender melhor o que é humano, frágil, finito, mas nobre, o caminho não vale a pena, é cheio de amargura e insegurança, de vaidade passageira, de mediocridade e inevitável decadência. Por isso a medicina é acima de tudo vulnerável como profissão no mundo moderno, mergulhado em mentalidades “pragmáticas”. E há momentos em que as ameaças se avolumam. O cenário brasileiro é particularmente propício para essa reflexão, por agressivo e caótico para o desempenho da profissão. É um país pródigo em cinismo, hipocrisia e oportunismo. E nele, vejo os médicos perdendo batalhas, valor, valores, respeito e sentido. Há quem não consiga disfarçar a decepção, há os que fazem parte da corrupção que os cerca, os que se tornam prisioneiros da banalidade e dos anseios materiais que tanto obcecam nossa cultura. Vejo cada vez mais pessoas absolutamente inaptas portanto CRMs, sem a mínima ideia do sentido que representam, vejo se aprofundar a ignorância e proliferarem as mentalidades rasas. E vejo ainda muitos grandes médicos em meio à multidão. É cada vez mais nítida a diferença entre os melhores e os piores. O Brasil é um país onde um “grande médico” se sente desconfortável. A falta de carreiras institucionalizadas, a decadência dos hospitais, a estagnação da produção científica e o aprofundamento da crise acadêmica, o mundo das negociatas dos convênios, tudo isto incomoda mais. E nossa crescente impopularidade também. Quando tínhamos a admiração do público, tínhamos orgulho das nossas escolas, da importância para a comunidade de nossos hospitais, tínhamos esperança no progresso científico e viva curiosidade sobre ele. Sabíamos da pobreza de nosso país, mas nos sentíamos agentes potenciais de sua transformação. Hoje políticos inescrupulosos se esforçam para ao mesmo tempo nos submeter e atrelar nossa identidade a sua ideologia de lutas de classe, onde nós somos representados como a elite privilegiada que vive da exploração do povo. E por isso parece justo que sejamos tratados com excepcional desrespeito. Precisamos tomar atitudes agora, manifestações de repúdio, lutar na arena política, na justiça. Mas precisamos recuperar o respeito e a admiração das pessoas. Porque nenhuma lei nos protegerá ou preservará nossa dignidade antes disso. A qualidade técnica e o rigor ético são nossas únicas armas. Precisamos recuperar os ambientes de formação do médico e ampliar nosso convívio e nossa associação para promover o progresso e o compartilhamento do conhecimento. Precisamos mensurar e fiscalizar a qualidade da formação e a atualização dos profissionais ao longo da vida. É necessário rigor para a concessão de títulos e estes não devem ser vitalícios. É necessário denunciar más condições estruturais nas escolas médicas. Nenhuma escola de medicina pode ser considerada de qualidade suficiente se não tiver seu próprio hospital universitário, se não tiver departamentos estruturados, com disciplinas e serviços assistenciais integrados e subordinados dentro da hierarquia acadêmica. Precisamos lutar para que caiam as barreiras de acesso ao conhecimento, para que deixe de ser caríssimo buscar informação técnica qualificada. As sociedades médicas devem trabalhar para criar consensos sobre diagnóstico e terapêutica validados nacionalmente. Devemos nos livrar de tudo o que nos afasta ou distorce nossa relação com nossos pacientes, especialmente as péssimas organizações de medicina de grupo que são apenas intermediários inúteis entre o médico ou o hospital e seu cliente. Não é possível que não haja alternativas viáveis de financiamento e securitização para questões de saúde. É preciso valorizar e aprimorar nosso preparo para atender o cliente privado, aquele que nos escolhe diretamente e investe em nosso trabalho. Não há real justificativa para que um médico dedicado, competente e com um bom relacionamento com sua comunidade dependa de empresas para angariar clientes. Precisamos aprender a divulgar nosso trabalho e disseminar informação. Hospitais precisam se tornar fortes referências de qualidade e segurança para suas comunidades. É preciso investir em complexidade, criar relações formais com os membros dos seus corpos clínicos, desenvolver projetos assistenciais em parceria com seus colaboradores e dividir riscos e ônus de investimento com estes ou por meio de associação. Em outros países é grande a associação de hospitais com investidores e benfeitores da comunidade. Seja como for, seja o médico em seu consultório ou a instituição hospitalar, precisam ter suas atenções voltadas diretamente ao cliente e dar a ele prioridade para receber dele um investimento que hoje é direcionado muitas vezes ao consumo fútil. O SUS ainda é a maior possibilidade para ajudarmos o Brasil a dar dignidade e real bem estar a seus cidadãos. É a real infraestrutura da saúde do país. Cada vez mais, porém, sua administração se mostra hostil e ressentida de sua dependência inevitável de médicos. No entanto, com o empenho e contribuição de universidades e médicos com alto nível de preparo técnico e científico, poderemos desenvolver nichos de excelência e complexidade altamente valorizados pela população. Me lembro como o Hospital das Clinicas era querido pelo povo quando lá fui residente. É preciso informar a população e incentivar sua mobilização para exigir seu direito a qualidade. Mas é essencial que não sejamos nós o motivo do descontentamento. Um médico só tem força se tem clientes que o valorizam, nada tem mais valor pragmático que isto. Devemos rejeitar e denunciar, sistematicamente, tudo o que nos opõe às pessoas que nós atendemos. Muito do que as leva a dirigir sua insatisfação ao médico é estrutural, é fruto de negligência administrativa, da corrupção e da incompetência da gestão. Não devemos medir esforços para deixar isto claro à população. Não devemos compactuar com situações de calamidade negligente que não fomos nós que criamos. Mas devemos assumir nossa parcela de responsabilidade. O que nos cabe exige dedicação a nos mantermos em nível alto de qualidade técnica, postura ética e habilidades sociais. Para qualquer médico que não se julgue preocupado com estes três temas, aconselho buscar profissão menos exigente. Não se trata de ser tecnicamente infalível, moralmente perfeito, sedutor ou submisso. Se trata de manter um esforço consciente de aprimoramento e autocritica, igualmente constantes. E de fazermos tudo isto juntos, tendo ao nosso lado os únicos aliados realmente importantes, as pessoas que atendemos e confiam em nós.

Nenhum comentário:

Postar um comentário