Este texto publiquei primeiro no facebook. Meus amigos o conhecem. Reflete uma ponderação nascida do desajeitado embate dos médicos brasileiros com o governo. Acredito em tudo o que escrevi, por isso republico, com mínimas adaptações:
Desde que assinou
seus vetos sobre a Lei do ato médico, Dilma Rousseff vem confirmando sua
disposição e de seu grupo político em tomar, também no campo da saúde, medidas
norteadas por motivações perversas, ocultas em gestos de apelo popular, como
prescreveria Maquiavel. Anos de debate público, revisões do texto para evitar
ambiguidades que preocupavam outros profissionais, de enfrentamento de um
enorme lobby muito chegado ao grupo político atualmente no poder, de nada
valeram. A presidente ratificou as distorções passionais dos insatisfeitos
porque elas lhe dão um pretexto para fazer o que lhe é conveniente: limitar a
liberdade e as prerrogativas dos médicos, o que a afasta de ter de atender a
pressões para um investimento no SUS que é absolutamente indesejado. Não
reconhecer o óbvio, que diagnósticos médicos e suas consequentes indicações
terapêuticas devem ser uma atribuição exclusiva, permite ao governo prescindir
de médicos em seu sistema, o que é mais barato, e é só isso que importa. O
recado está dado e não adianta ter ilusões, a postura do governo é hostil aos
médicos e continuará assim. Mais um passo para a elitização da medicina, onde
só os ricos terão acesso a serviços de alta complexidade e qualidade. Para os
pobres qualquer improviso vale. Não pensem que eles se importam também com os
profissionais estrangeiros que pretendem trazer. Dispensar a revalidação é um
ato calculado para aprisionar o médico estrangeiro nas armadilhas para as quais
serão encaminhados. É visto de trabalho vinculado à contrapartida de ter
cerceado o direito de dizer não, pois tais médicos não terão permissão legal
para trabalhar fora das áreas designadas. Estrangeiro, em local geograficamente
isolado, preso às condições locais não importa quais, subordinado a
administradores municipais corruptos ou mal preparados... só falta reter o
passaporte e inventar uma dívida a ser paga e já será trabalho análogo à
escravidão, com a sutileza de se pagar um salário supostamente alto, que nunca
cobriria os custos de se expor ao que há de pior no nosso sistema de saúde. Se
o médico for cubano, não poderá desistir, pois já é escravizado pelo seu
próprio país. Se for europeu, ao desistir, o fará com prejuízos e ficará a
desculpa da intolerância dos mesmos às realidades da pobreza, coisa de
almofadinha. E se alguém quiser fazer, voluntariamente, o revalida? Quero saber
com que “facilidade” verá um visto de trabalho concedido... Em mais 7 anos,
como se chegou a cogitar mas ainda não se descartou, uma nova leva de cativos
estará disponível, sob a coação de depender de aceitar o que for oferecido para
se formar médico. Me pergunto, porque somos um alvo tão fácil e constante? Por
que essas ações hostis são aparentemente populares? O que devemos fazer de
agora em diante? O problema é profundo e o enfrentamento poderá depender de uma
grande mudança de mentalidade e atitude da nossa parte. Há muito tempo penso
que nós médicos, no mundo todo, precisamos fazer uma reflexão sobre o sentido
de nosso trabalho e de nossa missão, sobre nossa função na sociedade e sobre o
que queremos nessa profissão. Considero todo trabalho honesto digno, sem
nenhuma hierarquia comparativa. Mas alguns trabalhos são meios de sobrevivência
enquanto outros, além disso, são dotados de um significado existencial
inerente, que se mistura com a própria identidade. Ser médico não é banal, como
não é banal qualquer profissão que precisa conviver com uma noção de missão e
responsabilidade social, o que não precisa ser a essência de qualquer
atividade. Nem melhor nem pior, essas são apenas diferenças. A medicina se
presta a ser meio de sobrevivência, às vezes bastante bem, mas não se resume a
isto. Sem sua dimensão existencial, sem que o médico encontre nela um caminho
para o crescimento pessoal, espiritual ou filosófico (o que se preferir), se
torna algo mais que banal, se torna vazio, triste e muitas vezes ridículo. Sem
que o médico encontre nela o privilégio de compreender melhor o que é humano,
frágil, finito, mas nobre, o caminho não vale a pena, é cheio de amargura e
insegurança, de vaidade passageira, de mediocridade e inevitável decadência.
Por isso a medicina é acima de tudo vulnerável como profissão no mundo moderno,
mergulhado em mentalidades “pragmáticas”. E há momentos em que as ameaças se
avolumam. O cenário brasileiro é particularmente propício para essa reflexão,
por agressivo e caótico para o desempenho da profissão. É um país pródigo em
cinismo, hipocrisia e oportunismo. E nele, vejo os médicos perdendo batalhas,
valor, valores, respeito e sentido. Há quem não consiga disfarçar a decepção,
há os que fazem parte da corrupção que os cerca, os que se tornam prisioneiros
da banalidade e dos anseios materiais que tanto obcecam nossa cultura. Vejo
cada vez mais pessoas absolutamente inaptas portanto CRMs, sem a mínima ideia
do sentido que representam, vejo se aprofundar a ignorância e proliferarem as
mentalidades rasas. E vejo ainda muitos grandes médicos em meio à multidão. É
cada vez mais nítida a diferença entre os melhores e os piores. O Brasil é um
país onde um “grande médico” se sente desconfortável. A falta de carreiras
institucionalizadas, a decadência dos hospitais, a estagnação da produção
científica e o aprofundamento da crise acadêmica, o mundo das negociatas dos
convênios, tudo isto incomoda mais. E nossa crescente impopularidade também.
Quando tínhamos a admiração do público, tínhamos orgulho das nossas escolas, da
importância para a comunidade de nossos hospitais, tínhamos esperança no
progresso científico e viva curiosidade sobre ele. Sabíamos da pobreza de nosso
país, mas nos sentíamos agentes potenciais de sua transformação. Hoje políticos
inescrupulosos se esforçam para ao mesmo tempo nos submeter e atrelar nossa identidade
a sua ideologia de lutas de classe, onde nós somos representados como a elite
privilegiada que vive da exploração do povo. E por isso parece justo que
sejamos tratados com excepcional desrespeito. Precisamos tomar atitudes agora,
manifestações de repúdio, lutar na arena política, na justiça. Mas precisamos
recuperar o respeito e a admiração das pessoas. Porque nenhuma lei nos
protegerá ou preservará nossa dignidade antes disso. A qualidade técnica e o
rigor ético são nossas únicas armas. Precisamos recuperar os ambientes de
formação do médico e ampliar nosso convívio e nossa associação para promover o
progresso e o compartilhamento do conhecimento. Precisamos mensurar e
fiscalizar a qualidade da formação e a atualização dos profissionais ao longo da
vida. É necessário rigor para a concessão de títulos e estes não devem ser
vitalícios. É necessário denunciar más condições estruturais nas escolas
médicas. Nenhuma escola de medicina pode ser considerada de qualidade
suficiente se não tiver seu próprio hospital universitário, se não tiver
departamentos estruturados, com disciplinas e serviços assistenciais integrados
e subordinados dentro da hierarquia acadêmica. Precisamos lutar para que caiam
as barreiras de acesso ao conhecimento, para que deixe de ser caríssimo buscar
informação técnica qualificada. As sociedades médicas devem trabalhar para
criar consensos sobre diagnóstico e terapêutica validados nacionalmente.
Devemos nos livrar de tudo o que nos afasta ou distorce nossa relação com
nossos pacientes, especialmente as péssimas organizações de medicina de grupo
que são apenas intermediários inúteis entre o médico ou o hospital e seu
cliente. Não é possível que não haja alternativas viáveis de financiamento e
securitização para questões de saúde. É preciso valorizar e aprimorar nosso
preparo para atender o cliente privado, aquele que nos escolhe diretamente e
investe em nosso trabalho. Não há real justificativa para que um médico
dedicado, competente e com um bom relacionamento com sua comunidade dependa de
empresas para angariar clientes. Precisamos aprender a divulgar nosso trabalho
e disseminar informação. Hospitais precisam se tornar fortes referências de
qualidade e segurança para suas comunidades. É preciso investir em
complexidade, criar relações formais com os membros dos seus corpos clínicos,
desenvolver projetos assistenciais em parceria com seus colaboradores e dividir
riscos e ônus de investimento com estes ou por meio de associação. Em outros
países é grande a associação de hospitais com investidores e benfeitores da
comunidade. Seja como for, seja o médico em seu consultório ou a instituição
hospitalar, precisam ter suas atenções voltadas diretamente ao cliente e dar a
ele prioridade para receber dele um investimento que hoje é direcionado muitas
vezes ao consumo fútil. O SUS ainda é a maior possibilidade para ajudarmos o
Brasil a dar dignidade e real bem estar a seus cidadãos. É a real
infraestrutura da saúde do país. Cada vez mais, porém, sua administração se
mostra hostil e ressentida de sua dependência inevitável de médicos. No
entanto, com o empenho e contribuição de universidades e médicos com alto nível
de preparo técnico e científico, poderemos desenvolver nichos de excelência e
complexidade altamente valorizados pela população. Me lembro como o Hospital
das Clinicas era querido pelo povo quando lá fui residente. É preciso informar
a população e incentivar sua mobilização para exigir seu direito a qualidade.
Mas é essencial que não sejamos nós o motivo do descontentamento. Um médico só
tem força se tem clientes que o valorizam, nada tem mais valor pragmático que
isto. Devemos rejeitar e denunciar, sistematicamente, tudo o que nos opõe às
pessoas que nós atendemos. Muito do que as leva a dirigir sua insatisfação ao
médico é estrutural, é fruto de negligência administrativa, da corrupção e da
incompetência da gestão. Não devemos medir esforços para deixar isto claro à
população. Não devemos compactuar com situações de calamidade negligente que
não fomos nós que criamos. Mas devemos assumir nossa parcela de
responsabilidade. O que nos cabe exige dedicação a nos mantermos em nível alto
de qualidade técnica, postura ética e habilidades sociais. Para qualquer médico
que não se julgue preocupado com estes três temas, aconselho buscar profissão
menos exigente. Não se trata de ser tecnicamente infalível, moralmente
perfeito, sedutor ou submisso. Se trata de manter um esforço consciente de
aprimoramento e autocritica, igualmente constantes. E de fazermos tudo isto
juntos, tendo ao nosso lado os únicos aliados realmente importantes, as pessoas
que atendemos e confiam em nós.

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